quinta-feira, 7 de setembro de 2017


NEGRAFIA: OS ESTÊNCILS DE TUWILE BRAGA

Uma das características mais importantes do artista contemporâneo, que se projeta para além do desempenho ou do domínio estritamente estético é, sem dúvida, a contemplação de uma ótica voltada para as questões do nosso tempo, visando uma atuação política através da criação artística. O Movimento Hip Hop, em todos os seus suportes, corresponde diretamente à essas necessidades e mais: seus postulados formais se desenvolveram longe do alcance e da influência da arte europeia e, inversamente, exercem influência significativa e inegável sobre a cultura "oficial". No caso específico da Grafia Urbana - grafite, pixo, estêncil, bomb, lambe-lambe, etc -, levada ao público enquanto este transita e se desloca, tais obras funcionam como um cenário da vida na urbe, uma grande ambientação diversa em estilos e em constante transformação.
 
Tuwile Jorge Kim Braga, 30 anos, professor Geografia da Rede Municipal de Ensino em Jundiaí, começou sua carreira influenciado pela paisagem de Osasco, município localizado na Zona Oeste de São Paulo, onde nasceu. Mas foi em Viçosa, Minas Gerais - para onde se muda em 2008 - que o artista aprimora boa parte da sua técnica, escolhendo o estêncil como via de expressão. É pertinente também fixar a leitura que ele faz entre a "disciplina" Geografia e a ocupação pública: "Eu acredito que, como a Geografia, enquanto ciência que precisa, como apontou Milton Santos, problematizar, em termos "humanos", a cidade, seus espaços e seus indivíduos, os grafites têm que ocupar todos os territórios possíveis. Isso faz, por exemplo, com que as pessoas tenham a possibilidade de se relacionar com as minhas obras".

Justificando nossas palavras iniciais acerca da importância do criador que se veste de outras responsabilidades, Tuwile atua também como educador-social - realiza Oficinas com crianças desde 2012 -, street-artista e militante negro. Seus estêncils estão "grafados" - ele utiliza essa palavra sempre quando se refere aos seus trabalhos - em diversas comunidades daqui e de São Paulo, principalmente. "Minha linha é fazer esses trabalhos no intuito de enegrecer os muros. Eu grafo sempre personagens que têm uma relação com a história das negras e dos negros no mundo". Ainda sobre a visibilidade da cultura negra, acrescenta: "Eu coloco personalidades negras no muro para que as pessoas, em algum momento do seu cotidiano, tenham contato com elas. Nem sempre as pessoas podem ir a um museu ou a uma exposição. Então, uma característica dos meus trabalhos é emoldurar esses personagens, como se eles tivessem saído das galerias direto pras ruas".

O Jardim Fepasa, comunidade jundiaiense, aloca a maior quantidade de estêncils do artista, quase uma coleção a céu aberto. São elas: a escritora Carolina Maria de Jesus, o cantor Michael Jackson, o artista Michael Basquiat (apagado) e o ator Grande Otelo. Perguntado sobre como consegue autorização para realizar as pinturas, Tuwile responde: "Eu chego na casa, bato palma. A pessoa sai, dou um bom dia ou boa tarde, explico o meu projeto, mostro alguns desenhos e pergunto se existe a possibilidade de eu fazer um trabalho, um grafite no muro da pessoa. Se não rolar, não rolou... parto pra outra casa. Na Fepasa foi assim. Fui entrando devagarzinho, pedindo licença, e as pessoas foram dando permissão".
 

A absorção das contribuições estéticas da Grafia Urbana no universo da arte galerista e do mundo comercial que a partir dela de constrói - e que, em grande escala, ainda permanece linkada às pesquisas e conquistas desenvolvidas pelas Vanguardas Europeias do começo do século XX - é uma discussão de grande polêmica e não nos cabe aqui discutir essas variantes bastante individuais: o próprio Tuwile já expôs seus trabalhos em espaços desse tipo. Ao mesmo tempo, ele mesmo defende a essência aberta e livre das criações que ilustram espaços públicos, exemplificando essa posição a partir das Oficinas de Estamparia que realiza: "Minhas oficinas ocorrem nas periferias, nas ruas, onde rola a circulação de pessoas e o meu público preferencial são as crianças. A rua é um lugar de contato e de diálogo, onde as coisas realmente acontecem, e quando a criança vê a oficina acontecendo ela fica curiosa e quer participar".
 

 
As Oficinas são gratuitas e Tuwile só pede para que cada participante traga uma camiseta para ser grafada: "São camisetas velhas que podem ser reutilizadas depois de estampadas. No final do processo, os participantes dizem que vão usar as camisetas todos os dias. Essa é a mágica das oficinas". Ainda sobre a condução da atividade: "Eu quero que as crianças tenham na pele da camiseta uma imagem referente à cultura afrobrasileira. Eu vou conversando sobre a estética do cabelo crespo, eu mostro algumas imagens, falo o que cada uma significa. Outro objetivo é iniciar um processo de quebra dos estereótipos que a população negra carrega. A gente faz uma breve introdução da técnica e tenta fazer com que eles tenham a maior autonomia possível na criação. Com isso, eles vão se ajudando e interagindo com os materiais".

 
 
A Oficina de Estamparia que gerou essa matéria foi realizada no Jardim Fepasa, no pátio da  Comunidade Santo Expedito, no Jardim Fepasa, em Jundiaí-SP. Foi facilitada pela amiga Rose Santos, participante da Igreja e uma das Coordenadoras da Pastoral da Criança no bairro.

fotos:
primeiro trio - trabalhos no Jardim Fepasa
quarteto: Oficina de Estamparia

links:

página do artista: https://www.facebook.com/tuwile.jorgekinbraga

álbum completo Oficina de Estamparia: https://www.facebook.com/lesovideofilmes/media_set?set=a.1427541750635094.100001378489970&type=3

álbum realização do "Grande Otelo": https://www.facebook.com/lesovideofilmes/media_set?set=a.1200594213329850.100001378489970&type=3



 

 

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