quinta-feira, 7 de setembro de 2017


NEGRAFIA: OS ESTÊNCILS DE TUWILE BRAGA

Uma das características mais importantes do artista contemporâneo, que se projeta para além do desempenho ou do domínio estritamente estético é, sem dúvida, a contemplação de uma ótica voltada para as questões do nosso tempo, visando uma atuação política através da criação artística. O Movimento Hip Hop, em todos os seus suportes, corresponde diretamente à essas necessidades e mais: seus postulados formais se desenvolveram longe do alcance e da influência da arte europeia e, inversamente, exercem influência significativa e inegável sobre a cultura "oficial". No caso específico da Grafia Urbana - grafite, pixo, estêncil, bomb, lambe-lambe, etc -, levada ao público enquanto este transita e se desloca, tais obras funcionam como um cenário da vida na urbe, uma grande ambientação diversa em estilos e em constante transformação.
 
Tuwile Jorge Kim Braga, 30 anos, professor Geografia da Rede Municipal de Ensino em Jundiaí, começou sua carreira influenciado pela paisagem de Osasco, município localizado na Zona Oeste de São Paulo, onde nasceu. Mas foi em Viçosa, Minas Gerais - para onde se muda em 2008 - que o artista aprimora boa parte da sua técnica, escolhendo o estêncil como via de expressão. É pertinente também fixar a leitura que ele faz entre a "disciplina" Geografia e a ocupação pública: "Eu acredito que, como a Geografia, enquanto ciência que precisa, como apontou Milton Santos, problematizar, em termos "humanos", a cidade, seus espaços e seus indivíduos, os grafites têm que ocupar todos os territórios possíveis. Isso faz, por exemplo, com que as pessoas tenham a possibilidade de se relacionar com as minhas obras".

Justificando nossas palavras iniciais acerca da importância do criador que se veste de outras responsabilidades, Tuwile atua também como educador-social - realiza Oficinas com crianças desde 2012 -, street-artista e militante negro. Seus estêncils estão "grafados" - ele utiliza essa palavra sempre quando se refere aos seus trabalhos - em diversas comunidades daqui e de São Paulo, principalmente. "Minha linha é fazer esses trabalhos no intuito de enegrecer os muros. Eu grafo sempre personagens que têm uma relação com a história das negras e dos negros no mundo". Ainda sobre a visibilidade da cultura negra, acrescenta: "Eu coloco personalidades negras no muro para que as pessoas, em algum momento do seu cotidiano, tenham contato com elas. Nem sempre as pessoas podem ir a um museu ou a uma exposição. Então, uma característica dos meus trabalhos é emoldurar esses personagens, como se eles tivessem saído das galerias direto pras ruas".

O Jardim Fepasa, comunidade jundiaiense, aloca a maior quantidade de estêncils do artista, quase uma coleção a céu aberto. São elas: a escritora Carolina Maria de Jesus, o cantor Michael Jackson, o artista Michael Basquiat (apagado) e o ator Grande Otelo. Perguntado sobre como consegue autorização para realizar as pinturas, Tuwile responde: "Eu chego na casa, bato palma. A pessoa sai, dou um bom dia ou boa tarde, explico o meu projeto, mostro alguns desenhos e pergunto se existe a possibilidade de eu fazer um trabalho, um grafite no muro da pessoa. Se não rolar, não rolou... parto pra outra casa. Na Fepasa foi assim. Fui entrando devagarzinho, pedindo licença, e as pessoas foram dando permissão".
 

A absorção das contribuições estéticas da Grafia Urbana no universo da arte galerista e do mundo comercial que a partir dela de constrói - e que, em grande escala, ainda permanece linkada às pesquisas e conquistas desenvolvidas pelas Vanguardas Europeias do começo do século XX - é uma discussão de grande polêmica e não nos cabe aqui discutir essas variantes bastante individuais: o próprio Tuwile já expôs seus trabalhos em espaços desse tipo. Ao mesmo tempo, ele mesmo defende a essência aberta e livre das criações que ilustram espaços públicos, exemplificando essa posição a partir das Oficinas de Estamparia que realiza: "Minhas oficinas ocorrem nas periferias, nas ruas, onde rola a circulação de pessoas e o meu público preferencial são as crianças. A rua é um lugar de contato e de diálogo, onde as coisas realmente acontecem, e quando a criança vê a oficina acontecendo ela fica curiosa e quer participar".
 

 
As Oficinas são gratuitas e Tuwile só pede para que cada participante traga uma camiseta para ser grafada: "São camisetas velhas que podem ser reutilizadas depois de estampadas. No final do processo, os participantes dizem que vão usar as camisetas todos os dias. Essa é a mágica das oficinas". Ainda sobre a condução da atividade: "Eu quero que as crianças tenham na pele da camiseta uma imagem referente à cultura afrobrasileira. Eu vou conversando sobre a estética do cabelo crespo, eu mostro algumas imagens, falo o que cada uma significa. Outro objetivo é iniciar um processo de quebra dos estereótipos que a população negra carrega. A gente faz uma breve introdução da técnica e tenta fazer com que eles tenham a maior autonomia possível na criação. Com isso, eles vão se ajudando e interagindo com os materiais".

 
 
A Oficina de Estamparia que gerou essa matéria foi realizada no Jardim Fepasa, no pátio da  Comunidade Santo Expedito, no Jardim Fepasa, em Jundiaí-SP. Foi facilitada pela amiga Rose Santos, participante da Igreja e uma das Coordenadoras da Pastoral da Criança no bairro.

fotos:
primeiro trio - trabalhos no Jardim Fepasa
quarteto: Oficina de Estamparia

links:

página do artista: https://www.facebook.com/tuwile.jorgekinbraga

álbum completo Oficina de Estamparia: https://www.facebook.com/lesovideofilmes/media_set?set=a.1427541750635094.100001378489970&type=3

álbum realização do "Grande Otelo": https://www.facebook.com/lesovideofilmes/media_set?set=a.1200594213329850.100001378489970&type=3



 

 

domingo, 27 de agosto de 2017



CUMElança 2017 com a escritora Lis Selwyn + leituras poéticas com Alice Rolezeira, Matheus Durante e Camila Godoi

por Rodrigo Tangerino
https://www.facebook.com/grupocume/
 
 
Mulher lésbica, 26 anos, paulistana. Nutricionista de formação, cursa Direito: "Escrever é minha paixão, mas gosto muito também de ler e jogar basquete. Tenho cinco gatos - hahahaha, todos resgatados! - e dois cachorros". Abramos aspas, mais uma vez, pruma escritora atravessada pelo cotidiano: "Não sei se essas informações são relevantes, mas enfim..."

São, são SIM!
 
Lis Selwyn, como a maioria daquelxs que tintam seus próprios caminhos via literatura, "olhando as pessoas e imaginando vidas para as vidas" (metalinguagem?), já bem cedo desenha, desse jeito, suas primeiras personagens: "Faço isso desde que me conheço por gente. Mas considero, conscientemente, que comecei a escrever por volta dos meus 12 ou 13 anos." Seus textos iniciais, na esteira das FANFICTIONS - estórias criadas por fãs a partir de produtos midiáticos de grande penetração pop, como blockbusters (publicados no blog da autora www.minhalocadoradeideias.blogspot.com) - foram sues primeiros sucessos. "Percebi que as pessoas leram, gostaram e começaram a me perguntar porquê eu não criava outras estórias como aquelas. Eu sempre escrevi, mas morria de medo que as pessoas vissem o que eu escrevia. Então, guardava nas últimas folhas do caderno da escola ou coisa parecida. Nesse momento, comecei a pensar sobre superar a barreira da vergonha e, antes que eu pudesse perceber, já estava criando coisas e postando-as na internet. A partir do primeiro conto longo que postei e o primeiro livro publicado, tive a certeza que queria fazer isso pro resto da minha vida."

A escritura LGBT - assim como todos os outros produtos (no melhor sentido da palavra, claro) de linguagem que fomentam essas discussões -, tem, desde logo, a essência da visibilidade. "A importância da literatura nas discussões sobre o universo LGBT é exatamente a representatividade. Está na hora de superarmos certas barreiras, sabe? Porquê certas personagens "precisam" ser de um jeito e não de outro?" A autora decifra um caminho e ilumina-o, de novo, pelo corriqueiro: "É só se perguntar: quando somos criança ou adolescente, quantos livros você leu e que eram protagonizados por personagens LGBT's? Quantas vezes você se sentiu representado em um livro?" Mesmo em início de carreira, Lis afirma que seus primeiros leitores foram muito receptivos, apesar da resistência de uns poucos: "Já recebi críticas como: ah, eu gostei das suas histórias, mas porquê elas sempre têm um personagem gay? Quero quebrar isso, sabe?"

O Pacto (Editora Metanoia, 2017), livro que acaba de ser editado e terá seu lançamento exclusivo no CUMElança 2017 (segue abaixo a sinopse oficial), "é tenso em grande parte da história e o leitor experimenta essa tensão o tempo todo. Ele navega pelo terror, pelo sobrenatural e pelo suspense", analisa Lis Selwyn. "Estou bastante ansiosa em ver a resposta das pessoas porquê é uma leitura diferente e, além das sensações que já descrevi, ele também tem a função de fazer as pessoas refletirem", completa.

Entre Páginas (Editora Metanoia, 2016) é o livro de estreia de Lis e também passará em revista pelo CUMElança 2017 (segue abaixo a sinopse oficial). Segundo a autora, o processo "começou como um sonho, uma história que acreditei o suficiente até que ela ganhasse corpo, páginas e capítulos. Hoje, ela está completa e aguardando o próximo passageiro embarcar para vivenciá-la." Laris Neal, amiga de Lis - além de professora, revisora, e escritora experimentada - nos fornece outros elementos interessantes do livro: um prato cheio para quem adora um bom mistério policial. A leitura flui fácil enquanto quem lê vai tentando montar o quebra-cabeça juntamente com a jovem protagonista Lucy. Ambientada em Dublin, na Irlanda, a história traz algumas curiosidades e descrições sobre o local, fazendo com que o leitor sinta-se dentro daquele mundo, mergulhado nas emoções que o suspense traz."

A principal diferença entre os dois livros, segundo a autora, é que "Entre Páginas" é um livro infanto-juvenil, voltado aos Young Adults (termo que se refere à produções dirigidas aos "Jovens Adultos", com idade entre 18 e 29 anos), e contém referências aos contos de fadas e que, apesar do teor investigativo, mostra com mais foco o desenvolvimento do relacionamento entre as duas personagens; já "O Pacto" traz uma narrativa com elementos bem mais maduros e é definitivamente voltado ao público adulto.

Intervenções Poéticas


Esse ano, o CUMElança também vai apresentar uma série de Intervenções Poéticas de autorxs jundiaienses. São elxs as poetizas Alice Rolezeira e Camila Godoi e o poeta Matheus Durante. Através de seus textos criativos, que ilustrarão a conversa com Lis Selwyn, o público vai entrar em contato com essas produções carregadas de experiências, lirismo e críticas marcantes ao "cis-tema".
Mais sobre xs autorxs

Alice Rolezeira, 25 anos, transviada artivista, descobriu na rima uma outra língua para se comunicar com a vida. Além da poesia escrita, fala através das cores e sons, usando a maquiagem e djset para fazer uma colagem de momentos e sentimentos.

Matheus Durante é poeta e escreve desde sempre. Quando criança, descobrindo suas métricas e rimas escrevia o que pensava e assim se encontra até hoje, despejando sentimentos no papel, sem que se sufoque na vida.

Camila Godoi, 45 anos, mulher trans e lésbica. É militante feminista e LGBT, integrante do Grupo CUME, auxiliando as Coordenadoras do Curso de Formação de Promotoras Legais Populares (PLP's). É também vocalista e compositora da banda Clandestinas, tocando contrabaixo e violão.
 

Então:
 
O QUÊ: CUMElança 2017 com Lis Selwyn + leituras poéticas com Alice Rolezeira, Matheus Durante e Camila Godoi
QUANDO: dia 16 de setembro, sábado, a partir das 15h
ONDE: Espaço Cultural Barravento - Rua Joaquim Nabuco, 371 - Ponte São João - Jundiaí, SP
QUANTO: Gratuito!
  
Livros de Lis Selwyn
 
O Pacto (Metanoia Editora - 2017)
Sinopse: Filipa é uma jovem enfermeira cheia de planos para o futuro. Mora em um pequeno apartamento no centro de São Paulo com a esposa Melina. Quando o emprego dos sonhos, trabalhar em um dos maiores hospitais de São Paulo, bate em sua porta, ela não pensa duas vezes! Mas, o que Filipa não esperava é que, por trás das paredes brancas e da estrutura do hospital de ponta, existem segredos obscuros que ninguém jamais ousou desvendar. Por obra do destino ou mera curiosidade, a enfermeira se vê, repentinamente, mais envolvida do que gostaria. Sem poder olhar para trás e destinada a desvendar o que acontece naquele hospital, Filipa precisará contar com a ajuda de algo que tentou ignorar a vida inteira. O caminho é estreito e arriscado e, qualquer passo em falso, pode ser fatal.

Entre Páginas (Metanoia Editora - 2016)
Sinopse: Lucy é uma jovem irlandesa criada pela avó. Sempre sonhou em descobrir mais sobre sua história, que nunca passou de um mistério para ela. É no desejo de conhecer o passado que Lucy se aproxima da literatura e conhece o Sir John, um velhinho muito inteligente e cheio de mistérios. O sebo do Sir John torna-se uma segunda casa para Lucy e uma amizade forte e verdadeira surge entre eles. Uma terrível tragédia muda completamente o rumo da história e um livro sem fim transforma-se em um enorme quebra-cabeça. Com a ajuda da detetive Lyra, Lucy passa a buscar justiça. Algo nasce entre elas, algo que talvez nem as estrelas previssem. E o que Lucy não esperava é que o encontro com as respostas é na verdade um encontro com sua própria história.




sábado, 15 de agosto de 2015

| trânsito-rio | trasitó-rio |

 
cartaz do longa TRANSITÓRIO ENTRE O VELHO E O NOVO (art. Leso)
 

Foi Bruno Teixeira Martins, fotógrafo e videasta que, em 2007, registrou a primeira aparição do TRANSITÓRIO, documentário coletivo realizado naquele ano por alunos da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, da qual ele também fazia parte. O Cineclube tradicional da escola, onde eram exibidos e discutidos os trabalhos fechados ou em processo de montagem, era o encontro mais decisivo do semestre, e o mais rico.

Alex Cruz, idealizador do projeto, já tinha retornado ao Peru - essa a primeira função que o material gravado teria; Evelyn Acevedo, a roteirista, só soube das histórias dias depois da exibição e eu gravava, naquele dia, um especial sobre os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro para a recém nascida TV UOL. O único representante do TRANSITÓRIO na ocasião era o montador Luiz Cláudio Dias, que defendeu nosso trabalho sob uma chuva de provocações baratas e elogios tímidos, respectivamente dos professores mais antigos e dos mais jovens da ECDR. O próprio Luiz fez seu balanço: "Eu acho que a galera não estava preparada pra ver um filme diferente." Irônico que nossas referências iniciais eram mais que decodificadas, principalmente praquela maioria de cineastas e críticos sessentistas: IvensVertov!

O real frescor da pesquisa do Alex, na verdade, vinha dos contatos com o "Dormente" (2005), documentário de ensaio visual de Joel Pizzini - visto, revisto e transvisto por ele - e com a poesia de Augusto de Campos, especialmente as da série "ovo-novelo" (1955-57). O poema "tempo-espaço" trouxe uma possibilidade espacial no exercício do "tempo-sentido" e da teoria do "não-lugar", presentes, em diferentes escalas, também nos outros três realizadores citados. A ideia de múltiplas direções de leitura e pluri-combinações de sentido se refletiu na esfera imagética do material capturado: planos fixos a espera de uma ação (montagem interna), imagens subjetivas de elementos do espaço (plataforma de embarque/desembarque, chão da barca e da estação etc.), além daqueles que buscavam observar as pessoas, aproximando-se delas ou comportando-se, as vezes, como uma câmera de segurança.

Apesar de ter sido considerado um "filme de montador" - os professores não sabiam do acordo interno da equipe, que teria seu espaço criativo individualmente, ou seja, sem seguir a hierarquia imposta pela própria escola (diretor-roteirista-montador, na ordem de importância) -, foi a montagem quem deu ao público as maiores contribuições do curta: o uso do P&B, o contraste acentuado e a anti-decupagem de alguns planos, que existiam por si só, sem estar necessariamente ligado à outro.

É desse material que extraímos os primeiros teasers de divulgação do longa!


"tempo-espaço", poema de Augusto de Campos, série "ovo-novelo (1955-57)
 

 

quarta-feira, 7 de março de 2012

CINECLUBE CINERGIAHHH!

Amigos,

 
o Cineclube Cinergia retoma suas atividades neste 2012 e exibe no próximo bimestre, em parceria com o Ateliê Casarão, filmes da contracultura nacional, anos 70. Na estreia - dia 13 de março, terça-feira próxima, a partir das 19h30 -, a exibição do longa "BANG BANG" (1970), de Andrea Tonacci, clássico do Cinema Marginal Brasileiro. O Ciclo agrupa filmes que têm em comum marcos das produções daquela época: gritos insólitos, a carnavalização explícita da vida cotidiana e o desbunde.

O Cinema Brasileiro pós-golpe militar, especialmente o produzido nos anos 1970, década que, para o multiartista Jards Macalé "começou em 1968, com a assinatura do AI-5", inaugura novas técnicas de comunicação audiovisuais. Essas técnicas, (re)colhidas pelo grande crítico de cinema Ismail Xavier em suas "Alegorias do Subdesenvolvimento" e exercitadas sob o nome-código CONTRACULTURA, retrabalharam temas centrais de uma sociedade patriarcalista e castradora utilizando-se, para isso, de uma enormidade de símbolos e recortes, subvertendo valores, regras e convenções. Esses filmes formam o vertiginoso quebra cabeças do cinema underground nacional – ou “udigrudi”, como o chamaria pejorativamente Glauber Rocha, que também será exibido (veja programação completa em www.lesovideofilmes.blogspot.com). Caracterizados ora pelos seus hermetismos, ora por sua solidão dadá, sempre serão filmes de resistência.

Trecho do artigo "Bang Bang na Mira" (por Rodrigo Tangerino):

"Àquela altura, o campo artístico já estava entregue à subversão e à negação plena do discurso burguês. O regime militar continuava cimentando as brechas restantes e se confundia ao tentar destruir um sistema de arte que fugia de seu controle e inspeção. Nessa luta, uma séria de artistas revisitaram os grandes saltos estético-teóricos dos anos sessenta e assumiram finalmente uma postura antropofágica e mais internacionalista de suas produções. Tais projetos, marcados pelo seu distanciamento do discurso político, dá-se lugar ao desbunde explícito e à transgressão dos valores, e regras estabelecidas. Equilibrado neste eixo, Bang Bang (1970), primeiro longa de Andrea Tonacci, vem com uma proposta mestiça de deboche e rigor estético, um verdadeiro pastiche da tradição."

Além dos curtas que abrem as sessões, das tv's e dos debates, a partir desta edição o Cinergia revive o legado do Grupo CIM - Campinas Imagem em Movimento que promoveu, no triênio 2002/03/04, atividades audiovisuais na cidade de Campinas: dos grupos de estudos e ações cineclubistas à produção de vídeos e mostras, com o apoio do MIS - Museu da Imagem e do Som de Campinas, espaço público dinamizado pelo grupo. Os "Cadernos do CIM", com textos explicativos dos filmes, são uma prova da organização intelectual do coletivo e funcionavam como um apêndice colaborativo aos espectadores das sessões. O artigo "Bang Bang na Mira", publicado originalmente nos "Cadernos" do Ciclo de Cinema Marginal (2003), complementará a compreensão e a discussão do filme.

Trecho do artigo "O Grupo CIM - Campinas Imagem em movimento no triênio 2002/03/04" (disponível na íntegra em www.zinezinho.blogspot.com nesta sexta-feira)

"A primeira vez que se houve falar do Grupo CIM - Campinas Imagem em Movimento, pelo menos fora de seu núcleo inicial, já formado em 2002, foi no encontro-seminário “O Cinema Possível”, um dos kinomeets realizados no auditório do Instituto Agronômico de Campinas, na Rua Barão de Jaguara. Era o tipo de encontro no qual se podiam ver reunidos alguns realizadores de Campinas e seus grupos: o cineoitista Lucas Vega, o homem por traz do Festival de Cinema Super8 de Campinas; o pessoal daZangá Filmes, Janaína Damasceno e Vítor Epifânio que, na época, ao lado de Rodrigo Braga, integrante desde então do Grupo Identidade de Luta Pela Diversidade Sexual de Campinas, finalizou dois curtas importantes para o Grupo: "Sacô?", VHS marco-zero da LesoVídeoFilmes e "Manequim", de Paulo Rodrigues e Afonso Machado; Kid, videasta ligado ao Estúdio Nômade de body art e a seminal Brócolis VHS, nas personas de Marina Meloni e Leandro Vieira. Não demorou muito para as aproximações curiosas, geradoras das primeiras forças, aglutinadas sob o grupo, já pronto para atuar"

Ainda estão na programação: "Copacabana Mon Amour", de Rogério Sganzerla, "A Lira do Delírio", de Walter Lima Jr. e "Câncer", de Glauber Rocha.

Então:
O QUÊ? - CINECLUBE CINERGIAHHH! exibe produções do CONTRACINEMA
QUANDO? - Dia 13 de março, terça-feira, a partir das 19h30
ONDE? - Ateliê Casarão - Rua Dr. Almeira, 265 - Centro, Jundiaí/SP - www.ateliecasarao.blogspot.com
QUANTO? - Gratuito!

FILME? - "Bang Bang" (Dir: Andrea Tonacci - PB - 90' - 1970 - Brasil)
Sinopse: Um homem neurastênico se vê envolvido em várias situações: um romance com uma bailarina espanhola, perseguições, discussões com um motorista de táxi e o enfrentamento com um bizarro trio de bandidos - ou uma família subvertida. "Bang Bang" é uma comédia surrealista, com uma seqüência de episódios que não compõem uma única história. O filme foi convidado a participar da prestigiada Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes.
dia 13 de março

Programa completo (todas as sessões gratuitas, sempre no Ateliê Casarão, às 19h30, terças-feiras)








BANG BANG (DIREÇÃO: ANDREA TONACCI - 1970 - 93')
Sinopse: Homem neurastênico que, durante a realização de um filme, se vê envolvido em várias situações como o romance com uma bailarina espanhola, perseguições, discussões com um motorista de táxi e o enfrentamento com um bizarro trio de bandidos.



dia 27 de março

COPACABANA MON AMOUR (DIREÇÃO: ROGÉRIO SGANZERLA - 1970 - 95')
Sinopse: Sônia Silk circula por Copacabana, no Rio de Janeiro, com o grande sonho de ser cantora da Rádio Nacional. Ela é irmã de Vidimar, empregado apaixonado pelo patrão, o Dr. Grilo. Sônia Silk vê espíritos baixarem em seres e objetos e procura o pai-de-santo, Joãozinho da Goméia para livrá-la desta aflição.


 dia 10 de abril

A LIRA DO DELÍRIO (DIREÇÃO: WALTER LIMA JUNIOR - 1978 - 105')
Sinopse: Dois momentos na vida de um grupo de personagens cariocas. No bloco carnavalesco “A Lira do Delírio”, eles vivem o êxtase e a violência. Fora do carnaval, cruzam-se num cabaré da Lapa. Ness Elliot, dançarina e taxi-girl, tem o seu bebê seqüestrado e cai nas malhas de Claudio, misto de malandro e homem de negócios. O repórter de polícia Pereio faz tudo para ajudá-la enquanto também investiga o atentado a fogo contra o homossexual Toni.

dia 24 de abril

"CÂNCER" (DIREÇÃO: GLAUBER ROCHA - 1968/72 - 86')
Sinopse: Nenhuma história particular, somente três personagens, em 27 planos longos, improvisando situações cujo tema é a violência psicológica, sexual e racial. No comando a improvisação total.



segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Ciclo TERROR, TERRIR E GORE: a dupla Toninho e Baiestorf mais photo.bi.texto da gênese

Material gráfico: "VISÕES DO TERROR" (Jundiaí, 2010)
1.
Ano passado, a LesoVídeoFilmes, em parceria com o Ateliê Casarão e a Cia. Casulo de Teatro, realizou a mostra coletiva "Visões do Terror": vídeos, tvs, pocketpeças, quadrinhos e desenhos. Alguns filmes exibidos na época fazem parte da programação do Ciclo TERROR, TERRIR E GORE, que invade Zumbiahy, num tempo e terreno profícuos, de muito cinema e organização entre os coletivos da cidade. As duas primeiras exibições do TTG - "Esta Noite Encarnarei no Seu Cadáver" (José Mojica Mrins, 1967) e "O Escorpião Escarlate" (Ivan Cardoso, 1990) -, foram muito discutidas nas sessões da FATEC.

2.
"CAÇADOR DE ALMAS II", de Toninho do Diabo - que acaba seu novo "A Fazenda do Diabo" (2011) -, é um filme estranho, centrado positivamente na dissolução de um possível "padrão de qualidade" e de seus clichês, obtendo - obtuso - um clima ao mesmo tempo engraçado e incômodo, acentuado pelos não-atores, pela pantomima e pela reação ao sobrenatural: antilinguagem.

O performer e diretor Toninho do Diabo
3.
"BLERGHHHH!!!", de Petter Baiestorf tem aquilo que o diretor mais gosta: sangueira e mulher pelada, ferramentas pruma crítica bruta. Filmado em VHS, o deboche e o exagero impressos aqui são seminais para duas produções mais radicais, ambas de 1998: "Gore Gore Gays" e "Sacanagems Bestiais dos Arcanjos Fálicos", filmes absolutamente malditos e "incompreendidos até pelos tarados", como ele próprio os definiu.

Petter Baiestorf em cena de "Blerghhhh!"
Então: dia 18 de outubro - 20h - terça-feira - Cineclube Cinergia - Ateliê Casarão

“BLERGHHH!!!!!” - (1996 - Petter Baiestorf)
O filho de um empresário e sua guarda-costas são sequestrados por um grupo de terroristas. Com o dinheiro do resgate eles esperam comprar mais armas e financiar assim a revolução. Um dos terroristas, um médico torturador, resolve usar a guarda-costas para realizar as suas taras sexuais e rodar um snuff-movie. Os problemas para o grupo começam quando o empresário se nega a pagar pela vida do filho, alegando que ele é um maldito viciado em drogas e não vale nada. Eliminar o refém pode não ser uma solução tão simples, ainda mais quando ele se nega a morrer.
“CAÇADOR DE ALMAS II” (2000 - Toninho do Diabo)
Segundo o próprio Toninho: "uma crítica social à corrupção no Brasil".


4.
PHOTO.BI.TEXTO: memórias de Visões do Terror (Ateliê Casarão, 2010 - LesoVídeo mais Cia. Casulo de Teatro)





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