quarta-feira, 11 de agosto de 2010

"VISÕES DO TERROR" agrada público pelo conjunto e variedade (por tanger)




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Marco zero das atividades culturais da Leso Vídeo neste segundo semestre, que retoma em grande estilo o que a produtora vinha realizando em termos de exibição e promoção de eventos plurais, “Visões do Terror” trouxe uma nova proposta ao ambiente de arte de Jundiaí. Na verdade, o próprio título do evento não é tão claro quanto parece. Partindo do óbvio, esperaríamos uma coleção de obras pautadas pelo tema, não pelo significado do termo do título. A rede artística e energética dos realizadores participantes supera qualquer generalização.

O teatro moderno, formado por cada vez mais grupos que delineiam seu próprio caminho, passou, mais contemporaneamente, a utilizar recursos audiovisuais em suas composições de cena, até a radicalidade de o próprio aparelho de tevê se tornar peça chave numa trama, por exemplo. No restante das outras chamadas grandes artes, ocorreu o mesmo: a nova palheta de cores proposta pela cor-luz do monitor magnético, dividindo com a cor-pigmento as ondas da nova arte, carregadas de sensorialidade e texturas, permite a geração de outros olhares, sem o purismo que a arte acadêmica tanto valoriza e se identifica.

A mistura de mídias e gêneros nas artes não é, porém, uma novidade. A novidade está em “exercitar” tal proposta e levar adiante as preocupações estéticas e de renovação da linguagem, especialmente as que resultaram, no Brasil, no emaranhado de mini-obras primas que são os anos setenta: “a qualidade está na quantidade”, parafraseando Glauber Rocha, quando orientava a montagem de "Di",  documentário de 1977, ainda proibido no país pela família de Di Cavalcante, realizado no velório e enterro do amigo pintor. Tal conceito traduz, no todo, a valorização da diversidade de produtos culturais característicos da pós modernidade, cheios de viézes individuais, dificultando o cunho de um rótulo para seus produtos, mesclas de alta e baixa cultura, cheque entre o "bem feito" e o "mal feito". Nós nos identificamos com essa proposta e seus ecos que, até hoje, norteiam as mais bem sucedidas e instigantes manifestações.

Neste sentido, ficamos à frente da maioria das atividades culturais da cidade, que sequer correspondem a esse legado de "vanguarda" e que, portanto, não contribuirão para a perpetuação da arte livre de amarras e seu nascimento libertário nas mais diversas mentes pensantes. Há quem prefira cumprir uma SEITA, endossar a relação entre um certo PADRÃO de qualidade duvidoso que se relaciona diretamente com sua COMERCIALIZAÇÃO, com seus caminhos vorazes de MARKETING e seu resultado controlado e castrador. Tudo isso cria uma cultura estanque, pensando que esse sistema é formado por situações de privilégio de toda ordem, o que impede o homem de exercer a sua vocação - do latim vocare -, ou seu "chamado", misto de independência e satisfação plena na execução deste quase sétimo sentido.

Partindo de transas antigas, de namoros e admirações pelo trabalho uns dos outros, o contato inicial de 2002 entre a Brócolis VHS e a Leso Vídeo durante o Fórum do Filme Livre, no 13º Festival Internacional de Curtas de São Paulo, se reforça num encontro em 2009 com o teatro e a dinâmica dos atores, via Cia. Casulo. O "documento" em questão é o registro da contação de histórias de suspense reflexivo “NO ESCURO”, hoje apresentado numa nova configuração, não só por conta da cênica de atores novos no grupo, mas também pela constante pesquisa e diálogo entre seus integrantes e os outros artistas da mesma cena. Foi da Cia. Casulo a sugestão do título da mostra e do roteiro da cena-filme que abriu e sessão – com maquiagem e figurinos caprichados. “Filmar uma peça” e “repetir para a câmera”: faces da mesma nota.

Numa esfera temporalmente mais próxima da produtora jundiaiense, a figura do performer Toninho do Diabo, top of mind do pavor e da espontaneidade, surge no carnaval de 2008, pouco tempo antes do desfile, que incluía a escola de samba que o artista preside na cidade. A Leso Vídeo realizava na ocasião parte de um documentário, ainda em formatação, sobre a movimentação da cultura e arte negras na cidade. Descaracterizado, até um pouco formal demais, falou das perspectivas da escola e da sua relação com o carnaval. Figura sempre presente na grade de programas diversos de tevê, já com seu personagem bem solidificado, Toninho se lança na produção de filmes gore – caracterizados pelo exagero na sangueira e mutilação -, se tornando mais conhecido e respeitado, além de premiado e exibido em outros países. Outros produtos levam também sua marca de criatividade: quadrinhos e videoclips. Seu filme “Caçador de Almas II” aproximou suas idéias de um público diferente, que recebeu bem o curta, se analisarmos as inúmeras reações e a atenção redobrada para a maneira de como o diretor e sua equipe resolveram esteticamente os problemas que a ficção propõe. Ponto para o público que, imerso em tal universo, reconheceu a importância inegável do multiartista. Seu produtor e editor Daniel Vardi foi figura importante neste diálogo com a obra de Toninho do Diabo e sua viabilização.

Mais perto ainda do agora, surge a figura de Sebastião Luíz Santos, coberta de tatoos de sua autoria, quase que formando uma segunda pele em alguns pontos, com sua marca de explosão versus implosão. O primeiro impacto de “Visões do Terror” vem com sua sequência de desenhos, que "abre" o espaço do Ateliê Casarão. Desde então, o público se viu fascinado pelos pequenos detalhes e encaixes inteligentes de seus labirintos a esferográfica. Ao observarem os desenhos, se aproximando bem deles, detalhes minúsculos cresciam diante dos olhos e se reintegravam ao grupo com um passo para trás, revelando, como na primeira vista, o croqui completo. Primeira exposição do artista, sua relação com o tema é múltipla e trás uma compreensão mais direta sobre a escola iniciada com Bosch: terror no caos das linhas.

A exibição de materiais no aparelho de tevê já foi bem mais comum e até superlotavam curadorias em espaços respeitados. Aqui, nossa referência está lá mesmo, nos anos sessenta, quando Nan June Paik, invertendo com o Fluxus a lógica de Duchamp, cria um novo suporte, pilar para qualquer tipo de arte tecnológica e genitora de teorias sobre mídia, cultura de massas e indústria cultural: a videoarte. As peças dispostas nas tevês não foram escolhidas no sentido de estabelecer uma narrativa ou interrelação. A partir do momento em que elas entram no ar simultaneamente, é inevitável que a coisa mude: um registro de uma casa em decomposição ("open doc", de 2005), um show da banda Textículos de Mary, cujo estilo, segundo um de seus integrantes, transita entre o drag metal e o death queen ("imagens lixo", de 2003) e uma cerimônia de casamento feita em VHS puro, reeditada no videocassete ("videocasamento", de 2010), se redimensionam. Os vídeos, em momentos rápidos e especiais, se conectavam e se perdiam no instante seguinte; o processo se recompõe na medida em que, num outro momento, o espectador se confronta novamente com os monitores. Nenhuma das tevês teria força sozinha; de outro lado, nenhum dos vídeos funcionaria noutro suporte com a mesma intensidade.

A internet, veículo por excelência da multiplicação de produtos textoaudiovisuais é, cada vez mais, uma fonte de materiais com timing exclusivo de sua máquina genitora. Utilizada em grande escala para a divulgação de filmes e programas realizados para a veiculação em cinemas e canais de tevê, seu universo é, hoje, muito maior que a mera autopromoção de mídias mais "qualificadas": a realização de filmes pensados para internet sugere aos seus realizadores uma postura diferente perante a forma do produto final. Minutos antes da sessão, surge o realizador Miro 4P, de Francisco Morato, com uma compilação de três trabalhos realizados para a internet. A exibição coletiva de trabalhos que o público geralmente consome no aconchego de seus quartos aumenta o alcance da proposta do evento, colocando face a face produções de diferentes suportes. Tais trabalhos, marcados pela ironia e pela sacada marcante dos "virais" mais famosos, encontraram, no programa, um espaço de destaque e foram recebidos sem delay pelos espectadores.

O evento atraiu um público de qualidade, teve um feed back que durou até os últimos instantes da mostra, até encerrar-se com cenas das atividades, exibidas na saída do espetáculo quase que em tempo real. Indispensável o papel do Ateliê Casarão, na figura atenciosa de seu mentor Cláudio de Albuquerque, que, observando atentamente a montagem final para a apresentação, viu seu espaço acampando uma proposta ainda inicial, mas ponto de partida para outras realizações.

Comentem o texto, divulguem as informações e aguardem novidades pro mês que vem. Quer participar disso tudo?


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